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QUANDO FOI QUE PERDEMOS NOSSA PAZ?

                               Renato Rainha (*)

                              Ainda me lembro quando cheguei ao Distrito Federal, mais precisamente em Taguatinga, no início dos anos 70,  como a vida era tranquila e segura.

                               Podíamos ficar na rua até à noitinha jogando “golzinho’, brincando de “mamãe da rua”, de “betebol”, ou, ainda, conversando com um grupo de amigos debaixo de alguma árvore frondosa.

                              Nos finais de semana ir ao cinema era de rigor. Podíamos ir e voltar à pé, mesmo se assistíssemos à última sessão. Nossa maior travessura era apertar a campainha de alguma casa e sair correndo ou pregar um bom e inocente susto nos transeuntes.

                              Na calçada de nossas casas os pais conversavam com os amigos sentados em gostosas espreguiçadeiras ou em banquinhos artesanais de madeira.
Violência e crimes não ocorriam ou, se ocorriam, estavam sempre muito longe de nós. Parece que até os bandidos tinham escrúpulos e limites.

                               Hoje não temos mais paz. Estamos, a todo o momento, independentemente da hora e do lugar, com a sensação de que vamos ser vítimas de algum crime. Nossas casas parecem verdadeiros presídios, com grades, cercas elétricas e alarmes. Ninguém tem coragem de tirar o carro da concessionária antes de contratar um seguro. Nossos filhos ficam dentro dos muros das escolas até que possamos buscá-los. Não temos mais coragem de sentar num banco da praça para jogar conversa fora.

                              Os meios de comunicação (TVs, revistas, jornais, etc.) quase que só nos trazem notícias de guerra, crimes, destruição, desgraça, pânico, etc., além de fazerem apologia ao sexo livre, ao uso de drogas, à destruição das famílias, à corrupção e a tantos deserviços para as nossas vidas.

                              As pessoas não têm mais tempo para nada, a não ser para o trabalho, que deixou de ser realizado com prazer e passou a ser exercido com insana e estressante competitividade, uma vez que o “ter” (coisas materiais) tornou-se muito mais valioso que o “ser” (honesto, respeitado, amigo, amável, etc). Deixa-se de brincar com um filho, de conversar com um amigo, de praticar esporte, de assistir um bom teatro, de andar pelos parques, de ir às feiras, etc, para que o tempo seja transformado inteiramente em meio de ganhar dinheiro, que será usado para que coisas e mais coisas sejam adquiridas e acumuladas, as quais, na sua maioria, ficam esquecidas em pouco tempo em um canto qualquer de nossas casas sem nenhuma utilidade.

                               A verdadeira felicidade está nas coisas simples e naturais. Enquanto nós não tivermos consciência disso o mundo se tornará cada vez mais difícil e complicado. Resgatar a paz é resgatar o respeito pelas pessoas e pela natureza, é cultivar os nobres sentimentos e usar o nosso tempo para fazer o bem, para nós mesmos e para os nossos semelhantes.

                               Matéria publicada no Jornal do Planalto nº39 ano IV – jan/05

                            * Renato Rainha é Conselheiro do Tribunal de Contas do Distrito Federal, pós-graduado em Ciências Políticas, pós-graduado  em Direito Processual  e atualmente é  aluno especial do Curso de Mestrado em Direito e Políticas Públicas do UniCEUB.

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